Produção

 

Por enquanto esta é, provavelmente, a única cena de The Man Who Killed Don Quixote, dirigido por Terry Gilliam e estrelado por Johnny Depp, que você verá.

Hoje vou falar deste filme porque foi uma lição de vida profissional assistí-lo. E nesta semana, mais precisamente amanhã, dia 30, encerro minhas atividades como repórter da NBO Editora.

Estou feliz, mas apreensiva, como toda mudança requer. Feliz por mudar, principalmente, e apreensiva pelas peças que a vida prega, como bem sabe meu pai, touro de saúde, que foi pego na esquina por um bichinho do signo de Câncer, que deixa ele até agora no hospital, com dor em tudo.

A mudança traz muita, mas muita esperança. Engraçado como a vida tem essas fases de reviravoltas. Tudo vem junto! É o famoso clichezão fecha uma porta e abre duas janelas. Funciona que é uma beleza.

Mas vamos ao filme: Don Quixote já é tida como uma produção "maldita" no mundo do cinema. Sempre alguma coisa deu errado nas adaptações do romance do espanhol Miguel de Cervantes para a telona. Mas no caso de Gilliam, TUDO deu errado. Tudo mesmo.

Escalaram um ator igual ao herói. Idêntico. Jean Rochefort, escolhido após DEZ anos de pré-produção. Gilliam, famoso por conseguir finalizar seus filmes na curva do desespero - mas com tudo dando certo no final - desta vez não teve, nem de perto, essa sorte.

O ator teve hérnia de disco, séria. Ótimo não, um Don Quixote que não pode andar a cavalo! Pensa que foi só isso?

Não.

Gilliam teve a brilhante idéia de tentar conseguir 32 milhões de dólares com investidores europeus, livrando-o assim das imposições criativas dos estúdios americanos. Mas a redenção virou a maré e a equipe, que falava várias línguas, não se entendia. Os atores não vinham, porque seus outros projetos atrasaram, e assim, este também. Os cavalos não estavam bem treinados.

Na primeira cena em um belo semi-árido espanhol, Quixote cavalga e, de repente, caças do exército sobrevoam o set. Ninguém checou isso, produção?

Após a filmagem desta cena, da qual você vê a foto aí em cima, uma tempestade destruiu o set. Câmeras, cenários, luzes, tudo boiando. E atrasando. E os investidores europeus resolvem dar uma passadinha depois, para visitar as filmagens.

Demais, né?

Tudo isso está no excelente documentário Lost in La Mancha, dirigido por Keith Fulton e Louis Pepe.

Que era para ter sido o making of do filme, e virou a melhor lição do que não fazer em uma produção. Em um trabalho. Na vida. É a melhor descrição visual de um drama do processo criativo e sua fragilidade.

É Murphy - e sua lei - em pura essência.

Que venham as mudanças, que sejam benéficas.